Era uma vez…

Era uma vez uma terra distante. Um lugar no além-mar, onde a promessa de futuro próspero atraía os mais aventureiros. A viagem era um convite para uma nova vida, diziam. Deixava-se para traz o velho mundo para aportar em um lugar em branco, onde era possível começar do zero, com matérias-primas e natureza abundantes, onde tudo sugeria progresso.

Esse breve preâmbulo, narrado como uma fábula venturosa, é um retrato simplificado e romantizado do espírito colonizador que reinou no hemisfério norte, sobretudo durante o século XIX e na primeira metade do século XX. As levas de imigrantes que chegaram ao Brasil vieram de diferentes lugares, em diferentes momentos. O Rio Grande do Sul, apesar de ter recebido as mais variadas nacionalidades, ficou fortemente marcado pela presença de colônias italianas e alemãs.

Em Pequena Alemanha, Bruna Engel constrói uma narrativa sobre as colônias teutas do Rio Grande do Sul. A partir de uma sequência muito bem trabalhada, cria uma espécie de conto imagético que se debruça sobre os remanescentes de uma cultura importada há mais de um século e que, até hoje, segue sendo perpetuada. As duas primeiras fotos que abrem o livrotêm, bem em seu centro, um foco de luz. Ali, naqueles pontos iluminados, em meio a uma mata verde e úmida, está o convite para adentrarmos nessa história.

Fotografando por cidades do interior do Estado – como Montenegro, São Vendelino, Nova Petrópolis, Harmonia, Salvador do Sul, entre outras – suas imagens constroem uma história familiar para os que moram no sul do país. A descendência europeia, traduzida pela cor da pele e dos olhos, pelos sobrenomes difíceis e pelos hábitos, é, nas bandas de cá, muitas vezes, ressaltada com orgulho. Essas regiões cresceram baseadas em um nacionalismo germânico, trazido por aqueles que aqui chegavam e mantido por seus descendentes. São comunidades que replicam a cultura alemã desde a organização da cidade, nos costumes e até na língua falada. As fotografias de Bruna evocam esse orgulho ufanista deslocado, trazendo um olhar crítico sobre a colonização, suas marcas e suas idealizações. 

Página por página, Bruna vai revelando pequenos e curiosos detalhes, como um bar onde lemos palavras em alemão; coleções de espingardas e clubes de tiro – agremiações comuns na região, que nasceram com o propósito de reunir os imigrantes e dar-lhes um senso de proteção à sua pátria (cabe ressaltar: à importada, não à brasileira); os jardins ordenados e floridos nas casas e pelas ruas da cidade; os adornos que decoram os interiores dos lares; os trajes típicos; a bandeira alemã.

Em suas fotografias, a ironia e o humor estão presentes como uma forma de indagação sobre como se constrói e se perpetua uma cultura dentro de uma região que, na verdade, não era exatamente uma terra em branco. É sobre o conflito e o cruzamento de um pangermanismo, que atravessa diversas gerações e é até hoje difundindo pelos habitantes dessas regiões, e o encontro desse com um nacionalismo brasileiro. Apesar de não explícito, é sabido que muitas destas regiões são extremamente tradicionalistas e alinhadas com o espírito ultraconservador que paira no ar atualmente. 

Há, nas escolhas de Bruna, referências claras à Escola de Fotografia de Düsseldorf. Os planos abertos e frontais, a luz difusa, a objetividade da imagem e a construção de uma tipologia de casas enxaimel, são alusões claras ao tipo de fotografia consagrada e propagada por Bernd e Hilla Becher, a partir dos anos 1960. Entretanto, assim como a cultura alemã na região sofreu adaptações, também suas fotografias contém um quê de imperfeição para os padrões da Escola. Os planos são quase retos, o enquadramento é quase preciso. Em algumas imagens o desvio é extremamente sutil, uma distorção mínima do plano reto; em outras, Bruna assume o plano em diagonal, joga com os ângulos e as linhas que compõem a cena e leva o olhar para diferentes pontos da imagem. A luz do céu branco é quase constante ao longo do livro, porém, às vezes, escapam uns lampejos de sol que criam pontos iluminados nas fotografias.

Tudo isso, que poderia parecer um problema, ressalto, aqui, como qualidade. A subjetividade que permeia as imagens – e que só é possível pois Bruna nasceu e cresceu em uma destas comunidades, o que lhe confere um olhar de dentro –, desviam do padrão rigoroso dos Becher, aportando algo mais caloroso, mais impreciso, mais vivo, mais próprio da cultura brasileira. E isso aparece não apenas na seleção de imagens, mas nos próprios referentes em si.

A história construída por Bruna cria um mundo próprio independente. Uma colônia germânica sem nome, composta por cidades, paisagens e personagens comuns, necessariamente marcada, também, por outras culturas. É nesse sentido que entendo que Bruna cria uma espécie de fábula. Um conto sobre um lugar encantado, que não existe. Um lugar que representa uma região movida por uma idealização identitária que, hoje em dia, talvez já não faça sentido. Pequena Alemanha se transforma assim numa investigação sensível que procura entender as estruturas culturais e a dificuldade da miscigenação que, necessariamente, marca a construção da identidade brasileira.

*

Texto escrito para a publicação digital Pequena Alemanha, de Bruna Engel, editada pela editora Austral. A obra consiste em uma investigação empírica, a partir da fotografia, sobre os impactos culturais da colonização germânica na região do Vale do Caí, no interior do Rio Grande do Sul.

Disponível para download aqui.