De costas para o mundo

Texto curatorial para exposição coletiva De costas para o mundo.

Alice Floriano, Bethielle Kupstaitis, Eduardo Aigner, Fabio Del Re, Katherine E. Bash, Letícia Remião e Lucas Cuervo Moura foram convidados a realizar obras a partir de uma proposição curatorial que investiga a abstração.

Exposição realizada na Sala Branca da Galeria Alice Floriano | Porto Alegre, agosto 2019

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A frase que dá nome a esta exposição é uma tradução livre de With my back to the world, título de uma pintura, de 1997, da artista canadense Agnes Martin. O pensamento de Martin acerca da abstração e da subjetividade presentes tanto no fazer artístico quanto no fruir do espectador serviram como ponto de partida para a provocação lançada ao grupo de artistas reunidos nesta mostra – aqui, cabe pontuar uma particularidade desse projeto: os artistas trabalham a partir da ideia proposta pelo curador. Com isso em mente, sugeri como pontos centrais o abstrato e a geometria, mas mais do que forma, composição e cor, o desafio estava em pensar na subjetividade da abstração e na capacidade da obra, com elementos mínimos, provocar o olhar a partir de um encontro sensível.

Tomaram forma, então, trabalhos inéditos que percorrem caminhos distintos. Há em comum entre eles uma sobreposição de camadas que provoca certo embaralhamento da visão. São obras que não se entregam de imediato. As cadeias de montanhas de Bethielle Kupstaitis, com sua composição em preto sobre preto, testam os limites da visibilidade, bem como os cadernos ilegíveis de Lucas Moura, que acumulam atividades de uma rotina inacessível e provocam o espectador a tentar ajustar o olhar a todo custo. Os mapas de Eduardo Aigner propõem um percurso poético por uma terra imaginária, criada sobre imagens que condensam camadas de tempo, enquanto os copos de mel de Letícia Remião guardam um mundo em si. As fotografias preto e branco de Fabio Del Re experimentam com as capacidades do fazer fotográfico, transformando a imagem em composição e abstração de luz e sombras. A estação de escuta, de Katherine E. Bash, nos convida a ver e ouvir um filme sem movimento, contido na cadência das páginas do livro. A narrativa, composta por fragmentos de diferentes poemas, conduz a história. As joias de Alice Floriano, com as séries Sal Grosso e Eu não conheço os teus amigos, criam pequenas pontuações ao longo da exposição, remetendo a elementos cotidianos que são parte das nossas pequenas meditações pessoais.

Assim, De costas para o mundo procura apontar para um tempo exterior ao mundo, porém interior ao trabalho poético e à subjetividade de cada artista. A liberdade de virar as costas para o cotidiano acelerado que vivemos e nos permitir criar um outro espaço de tempo, onde o fazer se desenrola e o olhar demorado é requisitado e necessário. De costas para o mundo esbarra também em nosso atual momento político, onde por vezes parece preciso afastar-se, olhar de fora, não para alienar-se, mas ao contrário, para encontrar a força sensível que nos permite seguir trabalhando, produzindo e criando de forma crítica.

Esta exposição não é uma exposição que fala de política diretamente. Ela é, para os artistas, um exercício sobre a criação poética e, para o público, uma outra proposição, a de olhar, de experimentar perder-se nos trabalhos, experimentar voltar a suas costas para o mundo para ficar de frente para os trabalhos e encontrar na abstração, seja ela imagem, objeto, som ou puramente pensamento, caminhos para encarar o mundo – sem grandes pretensões, mas sim começando pelo mínimo, por qualquer coisa, pela mínima provocação que uma obra de arte possa vir a provocar. É uma provocação sutil sobre o criar e o olhar.

 

 

agosto, 2019