O Meio do Mundo

Texto curatorial para exposição individual de Marco Antônio Filho
Instituto Goethe | Porto Alegre, março 2020

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Uma fotografia pode ser entendida, em um primeiro momento, como algo direto e objetivo, porém, é sempre resultado de uma escolha pessoal. É preciso olhar atentamente para encontrar os traços da subjetividade de quem as fez. Assim, nós, observadores, ao vermos imagens temos a chance de aprender algo a mais. O que vemos é aquilo que o artista escolheu nos mostrar e, essencialmente, é aquilo que o artista vê.

Em O Meio do Mundo, Marco Antônio Filho nos apresenta Tainhas, um pequeno vilarejo pertencente ao município de São Francisco de Paula. Lugar de origem de sua família paterna e também lugar que um dia foi ponto de parada para aqueles que subiam o estado em direção ao sudoeste do país e aqueles que atravessavam a serra em direção ao litoral, ou vice-versa.

Tainhas marcava exatamente o entroncamento entre as rodovias RS-020 e BR-453, a conhecida Rota do Sol. Era, portanto, um lugar movimentado, que parecia crescer conforme o comércio e o trânsito na região aumentavam. Nos anos 1990, o asfalto finalmente chegou à região, trazendo com ele a esperança de progresso. Porém, a construção da nova estrada desviou o trajeto original pouco mais de 800 metros do vilarejo, deixando-o, para sempre, à margem do mapa.

Os trabalhos apresentados por Marco – um conjunto de fotografias, um vídeo, uma instalação e um livro –, condensam sua investigação sobre este lugar. Uma pesquisa que fala sobre território e paisagem, mas também sobre origens, sobre o transcorrer do tempo, sobre a passagem das gerações e suas inevitáveis mudanças – mesmo em um lugar onde o tempo parece ter parado.

Por mais de quatro anos, o artista visitou e registrou a região. Olhou atentamente para suas paisagens, formadas por plantações de eucaliptos e pinus para corte, por campos ondulados e rochas. Olhou, observou, travou conversas com os moradores, ouviu histórias sobre o passado, do vilarejo e dos seus, aprendeu sobre aquele lugar que antes vivia apenas no seu imaginário. Uma pesquisa fortemente movida pelo afeto e pelo desejo de compreender esse meio do mundo, que aqui uso como metáfora. O artista olha para este lugar cheio de memórias que não lhe pertencem, mas que o integram, o constituem. O meio do mundo é então o seu meio do mundo, que, agora, ele nos oferece.

Em suas fotografias, capturadas com uma câmera de médio formato, vemos composições rigorosas em seus enquadramentos. Nada está ali por acaso ou sem querer. Há um sutil jogo de linhas (verticais, horizontais e diagonais), através da perspectiva da imagem ou de maneira física na cena (como muros, arames farpados, fios de luz, postes, galhos), que coloca em evidência aquilo que o artista escolheu mostrar. Planos abertos e fechados alternam-se revelando o olhar subjetivo e sensível de Marco para este lugar. Suas imagens nos revelam pequenas anotações sobre Tainhas, pontuações sobre o que forma este lugar.

Ao conjunto de fotografias somam-se o vídeo A estrada, onde observamos a passagem do tempo na paisagem e um dos poucos momentos em que o artista nos apresenta um plano tão aberto dos Campos de Cima da Serra; a instalação com testemunhos de sondagem – amostras de solo retiradas nos anos 1950, quando uma companhia de energia elétrica aventou a possibilidade de construir uma hidrelétrica no rio Tainhas; e o pequeno livro Opúsculo de observações. Nele, Marco transforma o pensamento e as imagens em palavra. Uma mistura de caderno de observações científicas com diário de bordo do processo artístico, um refúgio íntimo, poético e pessoal da sua relação com aquele lugar.

Em O Meio do Mundo tudo está impregnado pelo tempo. Seja a passagem do tempo físico, presente nas imagens ou marcado nas rochas dos testemunhos; seja o tempo subjetivo, aquele que podemos associar à percepção e aos sentidos.

O que Marco nos entrega, em suas imagens preto e branco, é um olhar que opera a paisagem, que a destrincha, que procura nela o afeto que o moveu até lá. Marco vasculha a paisagem como quem vasculha a própria memória. Constrói assim uma memória imaginada, atravessada pela história desse “lugar que se situa entre as promessas da modernidade e a amnésia da história”[1]. O Meio do Mundo é sobre um lugar. Mas é, mais do que qualquer outra coisa, sobre o olhar de uma pessoa para esse lugar.

março de 2020

 

[1] Marco Antônio Filho, em uma das nossas primeiras conversas no seu ateliê.