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Sobre encantos e dicotomias

Texto escrito por ocasião da curadoria da exposição Nos contrários as coisas se revelam, de Marcos Fioravante.

Galeria Gestual | Porto Alegre, 13 de abril a 2 de maio de 2015.

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O Marcos desenha com esmero, com virtuosidade. Nos seus trabalhos, o desenho propriamente dito, ou a imagem do desenho, ocupa o centro do papel. Um centro de forças que, em sua composição precisa, o sustenta e o mantém. Ao redor, há, quase sempre, a folha imaculada, branca, limpa, sem traços ou riscos para além dos limites estabelecidos. Arrisco dizer que é exatamente aqui que começa um dos encantos do seu trabalho. O primor técnico atrai o olhar, mas as dicotomias que se revelam quando nos dispomos a contemplar é o que nos apreende.

Seus desenhos são feitos a partir de imagens capturadas de diferentes fontes. Ora fotografias feitas pelo próprio artista, ora imagens recortadas de panfletos, encartes e sites. São objetos que nos rodeiam, coisas que estão aí, mas nem sempre em foco. No trabalho de transpor tal imagem para o papel, torná-la desenho (e aqui há a presença do corpo físico, do gesto, do esforço e da técnica), Marcos explora, mesmo que inconscientemente, o ruído criado entre o objeto em si e o objeto tornado imagem. Nesse percurso, o desenho é, também, uma nova imagem. Porém, a partir dele somos levados para um outro lado, o do olhar poético do artista, capaz de atentar e transformar a nossa forma de ver.

Usando principalmente pastel e carvão, o desenho é erguido, então, sobre o centro. A mancha, que varia entre muitos tons de cinza e um preto carregado, contrasta com a luz que incide sobre o desenho e o branco do papel. A composição flutua dentro dos limites da moldura, ao mesmo tempo em que ocupa este espaço com força – pesa, marca, se faz presente. Há também, nos desenhos de Marcos, uma presença marcada pela ausência. Nos contrários, as coisas se revelam.

Em contraste com a superfície limpa, estão os desenhos feitos em cima de folhas que um dia forraram o chão do ateliê e os desenhos produzidos a partir de outros desenhos que foram descartados. Ambas produções diferenciam-se das demais por partirem de um papel já trabalhado e, também, por ocupa-lo por inteiro. No primeiro caso, cria-se um jogo entre o contraste da forma delimitada e a superfície de incertezas, acidentes e encontros que é o chão do estúdio; no outro, a pequena escala revela um olhar para arquiteturas mais íntimas, que falam sobre a nossa relação com os espaços. Me parece que, aqui, a sua produção aponta para um novo lugar, no qual encontra ainda mais espaço para desenvolver as oposições que a compõem.

Ainda, o interesse pela forma, pela geometria e pela perspectiva perpassam fortemente o conjunto de obras que formam esta exposição. Fazem parte do olhar do artista para o mundo. O tempo inteiro, me parece que Marcos quer falar mais sobre a nossa relação com as imagens e nossa forma de olhar para elas, do que sobre os objetos em si. Ao contemplar a sua obra é preciso saber deixar-se levar para esse mundo real-imaginário, levemente sombrio e misterioso, para, por lá, reencontrar o encanto do olhar.

Luísa Kiefer
Porto Alegre, março de 2015.

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