Texto curatorial escrito para a exposição Série Morandi, individual de Fábio Del Re.

Espaço Cultural ESPM-Sul | Porto Alegre, 15 de outubro de 2015 a 20 de janeiro de 2016.

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Por onde começa um trabalho? O que é que dá o clique inicial para a criação? Na Série Morandi, Fabio Del Re partiu de um ponto concreto e, ao mesmo tempo, subjetivo: queria chegar a uma imagem que traduzisse a sensação que sentiu ao ver as pinturas de Giorgio Morandi, em 2012, em Porto Alegre.

Não era exatamente a ideia de natureza morta que lhe interessava, mas sim as questões colocadas pela pintura de Morandi: a relação objeto e fundo, o volume discreto, as camadas de tinta, a presença da manualidade. Uma pintura calma, de cores quietas, que parece se distender no tempo ou, ainda, ocupar um outro tempo. É uma pintura que persiste em nossa memória de uma forma silenciosa. Arrebatadora mas familiar, como se sempre estivesse por ali.

Desse sentimento subjetivo nasceu o primeiro Morandi de Fabio, em 2013. Sua base: a fotografia. Fabio é fotógrafo de mão cheia, de olhar atento ao objeto e à cena e encantado pelo processo fotográfico. Nos trabalhos que compõem essa série, fotografia analógica e fotografia digital estão imbricadas. Jogam também com outras técnicas, como a sobreposição de negativos, a dupla exposição e o refotografar. São camadas que, como na pintura, justapostas, constroem o resultado poético final.

Os objetos formam diferentes configurações, que nem sempre se revelam ao primeiro olhar. Em alguns momentos o volume aparece claramente. Em outros, a imagem se condensa em um plano chapado no papel. Negativo e positivo se complementam e dão as características da imagem fotográfica. A escala de algumas fotografias provocam estranhamento; outras, pequenas e delicadas, nos remetem diretamente para o universo mais íntimo, próprio da nossa relação com estes objetos. Algumas marcas, que impregnaram os cristais de sal de prata do filme vencido, se repetem. Em todas as fotos dessa série, Fabio deixa um indício do processo de sua criação. Com atenção, podemos perceber como o objeto começa a se tornar uma fotografia e que caminhos o fotógrafo percorre.

Esse rastro que perpassa as obras nos indica que é no próprio fazer que Fabio encontra o prazer de criar e o caminho para traduzir aquele primeiro sentimento subjetivo que o arrebatou diante das pinturas. Preparar a cena, dispor os objetos; trabalhar a luz, ponderar sobre a forma e os volumes; arrumar a máquina, disparar o clique. Revelar os negativos, escolher, recortar, editar e refotografar. Enfim, transformar os objetos em imagem, mas não necessariamente em uma imagem clara e óbvia, e sim em uma imagem que se distenda no tempo, que, com suas camadas, fale sobre a subjetividade do olhar, do tempo de atenção para perceber e, também, que nos permita apreender o processo.

Outubro 2015

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