Novos Mergulhos

Texto curatorial para a exposição individual de Gisela Waetge, escrito a quatro mãos com Eduardo Veras.

Instituto Ling | Porto Alegre, 30 de novembro de 2016 a 13 de abril de 2017.

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Uma das questões que logo se colocam diante da morte de um artista diz respeito à continuidade de seu legado. Em seguida, outras indagações se desdobram a partir dessa primeira: como preservar o acervo? Como escolher o que mostrar? Que tipo de recortes fazer? Como decidir se já é chegada a hora de uma retrospectiva? Todas essas dúvidas pautaram nossas escolhas para a presente exposição, que é a primeira individual de Gisela Waetge após sua morte precoce, em agosto de 2015.

Entrar no universo íntimo da artista – seu ateliê, seus estudos, suas anotações – sem sua presença foi como descobrir um trajeto novo rumo a um endereço familiar; ou talvez como seguir em frente, seguros de nossa direção, mas ansiosos por já não termos ninguém para nos conduzir pelo caminho. Sem Gisela por perto, nos concedemos uma espécie de licença para abrir suas gavetas e seus armários, desembrulhar papeis, descobrir desenhos e redescobrir pinturas, reencontrando a artista graças à obra que ela deixou.

O que escolhemos apresentar no Instituto Ling, em Porto Alegre, é um primeiro mergulho em uma parte pequena de sua produção – sobretudo a parte mais recente, praticamente toda ela inédita. Entre pinturas e desenhos de grande, médio ou pequeno porte, estudos e cadernos de diferentes datas, encontramos questões centrais e persistentes em sua obra. Parte daquilo que constitui a força de sua poética – a geometria, a rigidez formal equilibrada com a delicadeza da composição, a racionalidade matemática em meio ao deleite visual e à sensibilidade de tudo aquilo que a rodeava – sempre esteve lá, fosse na tela ou no papel, no início de sua carreira ou em seus últimos trabalhos. Essa força funciona como uma linha de coerência que, naturalmente, nos conduz por sua trajetória e aponta direções na escolha dos trabalhos.  Gisela pintava, de forma abstrata e rigorosa, seu universo íntimo e próximo, aquilo que a rodeava e lhe era próprio, mas, também, o mundo, a vida e a morte.

Parte do que há de tão comovente nesse legado tem a ver, justamente, com a maneira como suas pinturas e desenhos sabiam equilibrar essas tensões, trabalhando com certos contrapontos e ambiguidades. A mais notável delas talvez seja aquela que emergia do convívio entre uma disposição construtiva de matriz conceitual – a disposição matemática, rigorosa, bastante cerebral – e o apuro, digamos, mais formalista, que se norteava pela busca da beleza, pelo doce impacto retiniano. Não que não exista uma beleza muito íntima da matemática – Gisela parecia consciente dessa força, compreendia bem a energia própria dos arranjos lógicos e milimétricos. Em mais de uma ocasião, ela imaginou, e mesmo chegou a descrever, um plano minucioso, preciso, para que um desenho seu pudesse ser executado não por ela, mas por outra pessoa. As fórmulas matemáticas a encantavam e pautaram o ritmo de alguns de seus trabalhos, como as pinturas da série Base 12 – Base 9, de 2013. Ali, linhas e pontos jogavam com as medidas que delimitavam a malha ortogonal do fundo, embaralhando a percepção mais cartesiana. Ao mesmo tempo, a artista mantinha sempre como esteio suas impressões mais intuitivas, as harmonias inexplicáveis, as melodias visuais que levavam em conta e até desejavam a incorporação de acasos, silêncios, tropeços.

Outra ambiguidade frequente nas obras dessa artista dizia respeito à escala. O mais comum é que a delicadeza tão característica de suas composições, a suavidade com que os materiais pousavam sobre a tela ou sobre o papel – uma gota de lilás ou azul deslizando surdamente sobre a superfície – tratasse de conviver, meio como contraponto, com dimensões bastante largas. As telas, não raro, se faziam imensas, às vezes com dois ou três metros quadrados de área; vez ou outra alcançavam até mais do que isso. Um projeto seu, infelizmente nunca executado, previa a construção de um extenso painel de azulejos, que, se possível, poderia se desdobrar até o infinito. Em tais trabalhos fica ainda mais evidente a relação presente em sua obra entre o programado e o acaso.

Nos desenhos que Gisela fez em seus dois últimos anos de vida, esse paradoxo da escala desapareceu. Com as limitações físicas impostas, fosse pela doença em si, fosse pelo tratamento, ela não parou de trabalhar, mas decidiu reduzir o tamanho das imagens que orquestrava. Limitou as medidas e trocou os materiais, privilegiando pequenos cadernos, blocos, folhas e papeizinhos avulsos, grafites, lápis de cor, canetas nanquim e réguas.

Há duas consequências diretas dessa opção pelo pequeno. De um lado, uma maior concentração – seja de fôlego, de meios ou de resultados. Aquilo que se desenrolava em um plano largo, generoso, passou a se reacomodar em espaços escassos, econômicos. A base tornou-se limitada, mas uma quantidade vasta de gestos e procedimentos se afunilaram ali: pontos, círculos, linhas, grades, partituras, paralelismos, sobreposições, traços, carimbos. Daí o segundo ponto que gostaríamos de elencar, quase um desdobramento do primeiro: talvez porque houvesse uma combinação de urgência do trabalho e do fazer, um desejo imperioso de construção de imagens, uma ética do fazer, os desenhos em escala concentrada incentivaram a experimentação. Gisela sempre teve gosto pela experimentação: a sorte de tentar diferentes caminhos e possibilidades a partir de um trajeto comum. Muito seguidamente, o que acontecia em uma tela era herança do que ocorrera na anterior, e assim por diante, de tela em tela. No caso dos desenhos pequenos, porém, os intervalos se abreviaram, e, ao olhá-los atentamente, podemos perceber que a variação de algo que acabara de se arquitetar tinha a sorte de continuar quase imediatamente. As sucessivas tentativas estimularam a vontade de experimentar.

No recorte proposto aqui, buscamos apresentar algumas dessas ambiguidades e características que acompanharam a produção de Gisela em diferentes fases. Peças um pouco mais remotas, da primeira década dos anos 2000, representadas por duas pinturas quadradas e pelos estudos de escorridos de tinta, fazem parte da série que vem na esteira daquilo que foi produzido e apresentado na 5a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre (2005). Nos desenhos desdobráveis e nos “desenhos de arquitetura”, produzidos entre 2008 e 2011, muitos deles apresentados ao público pela primeira vez, aparecem novas regras de produção e despontam outras relações entre as formas. A série de desenhos horizontais, alguns sobre caderno de partitura, outros sobre quadriculados ou pautados, são parte de sua produção mais recente e até então inédita. Neles podemos verificar a mudança de escala e a experimentação que a instigou até o final.

Se Gisela não pode mais nos acompanhar na pesquisa sobre sua obra, é justamente seu legado que nos conduzirá, de diferentes formas e por distintos caminhos, em ações que permitam a continuidade e a atualização de sua sólida e delicada trajetória como artista. O rigor e a leveza de suas pinturas e desenhos estão vivos, deixando em aberto muitas outras possibilidades de mergulho, permitindo que novos olhares e pesquisas possam emergir desse universo.

Eduardo Veras e Luísa Kiefer, novembro de 2016.

 

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